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Margens · Encontros

Encontros

Desenhos em tons de cinza e palavras que marcam os momentos que mudam uma vida. Quando o nosso caminho entra num sulco aberto por outros.

Dom Sergio sentado a uma mesa
O poema de dom Sergio Adelasio (em italiano)

Dom Sergio, “um cedro imenso cheio de vida”

Sabe quando, durante anos, você continua vendo o rosto de uma pessoa pendurado numa parede, sem nunca tê-la conhecido de verdade, e, em certo momento, parece que quase a conhece?

Pois é o que acontece comigo com dom Sergio.

Um quadro simples. Silencioso. Sempre presente.

Nunca o conheci de verdade. E, mesmo assim, entre todas as figuras que encontrei de forma indireta nesses anos, talvez seja a que sinto mais próxima de mim.

Quem o conheceu fala de um homem que atravessava comunidades, encontros e fragilidades humanas levando ânimo, confiança e movimento.

Daqueles que não precisavam ocupar o centro para deixar uma marca profunda. Parecia pertencer mais às ruas, aos encontros e às relações humanas do que aos escritórios.

Algum tempo atrás, encontrei um pequeno livro de poemas dele. Ao ler, tive a sensação de encontrá-lo, talvez pela primeira vez, de verdade.

Naquelas palavras reencontrei algo que eu também continuo procurando nas margens, nas pessoas e nas histórias suspensas.

Há um poema que ficou em mim mais do que os outros. Ele fala do amor e do Espírito como de uma grande árvore cheia de vida, feita de infinitas folhas e galhos.

Talvez algumas pessoas façam exatamente isso na vida: criam raízes invisíveis, mantêm as pessoas unidas sem fazer barulho, deixam sombra e fôlego mesmo muitos anos depois de terem passado.

Por isso o trago aqui. Como um pequeno gesto de gratidão a um homem que não conheci de verdade, mas que ainda hoje, de algum modo, continua falando por meio do que deixou.

O peregrino com seu cajado
O caminhante à beira da estrada

O peregrino

Chamam-no de peregrino, andarilho, caminhante. Mas talvez as palavras não bastem para contar uma pessoa assim.

Quando ele chega com seu cajado gasto, os dreads balançando ao vento e aquela mochila que parece conter tudo de que precisa para viver, sempre tenho a sensação de que em algum lugar o tempo desacelera.

Ele caminha. Só caminha.

Atravessa montanhas, cidadezinhas e estradas vicinais das regiões de Bérgamo e de Brescia e de toda a Lombardia, como se o mundo ainda fosse feito de distâncias de verdade, de passos e de estações.

Dorme onde dá. Onde alguém abre uma porta, oferece um canto tranquilo, um teto, um gramado. Às vezes pede algo para comer. E quase sempre encontra alguém disposto a dividir um pedaço de pão, uma sopa, uma palavra.

Uma vez por ano, ele passa também pela minha casa.

O que realmente me impressiona é a relação dele com o tempo. Para ir daqui até um lugar aonde a gente chegaria em duas horas de carro, ele leva talvez dois dias.

E esses dois dias não são um atraso. São a viagem.

Quando ele fala das suas andanças, das pessoas que encontrou pelo caminho, das trilhas, da chuva, de dormir ao relento ou num sítio, sinto que estou ouvindo algo de outra época.

Como se ele carregasse um jeito de viver o mundo mais parecido com o de dois séculos atrás do que com o de hoje.

Nós atravessamos os lugares. Ele mora neles.

Não possui quase nada. E, mesmo assim, carrega histórias, encontros, silêncios e caminhos que muitos de nós esquecemos.

Talvez seja isso que o torna especial: só de caminhar, ele lembra que ainda existe um tempo humano.

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